| Porto das Barcas, Parnaíba, Piauí |
Em 2010, organizamos com a equipe do Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Superintendência do Piauí, naquele momento, a obra Cadernos do Patrimônio Cultural do Piauí.
| porto das barcas, sombras de carnaúbas |
Na obra, um dos textos é de Dalmo Vieira, que nos auxilia a entender "Os sentidos do tombamento", o autor se refere ao tombamento de exemplares da arquitetura parnaibana.
Por Dalmo Vieira Filho [na época da escrita deste texto Diretor do DEPAM/Iphan]
À primeira vista, parece que o tombamento da cidade de Parnaíba, Piauí, é um tributo ao ilustre passado da urbe ou uma referência aos edifícios antigos que referenciam a história e a memória do desenvolvimento urbano do município.
| porto das barcas, a associação comercial tem sede no complexo cultural |
Essas afirmações são verdadeiras, no entanto, o mais importante é que o tombamento vai muito além do tributo ao passado: ele reconhece e protege um dos maiores trunfos que a cidade de Parnaíba tem para o seu desenvolvimento e para o seu futuro.
Para muitos, pode soar paradoxal, mas a preservação do patrimônio é um dos pressupostos do urbanismo contemporâneo. A humanidade sempre perseguiu, desde os primórdios da história, o sonho da cidade ideal. Uma das últimas vezes que essa aspiração foi buscada em verdadeira grandeza, em todo o mundo, foi com a inspirada construção de Brasília. Levados pela generosidade de propósitos, os modernistas acreditaram que a cidade racionalizada, dividida em funções, com larga estrutura de circulação de veículos e imersa em jardins, responderia aos anseios de urbanidade do homem do século XX – dominado pelas utopias da modernização e da modernidade; o Brasil edificava sua nova capital em pleno planalto central do País, momento histórico em que as ruínas da segunda grande guerra levavam muitos países ao dilema de como reconstruir as cidades arruinadas pelo conflito.
| lojas de artesanato, lanchonetes, bares, cafés, sorveterias compoem o complexo porto das barcas |
Como deveria se dar esta reconstrução? Seguiam o ideário modernista das cidades novas, propostas como futuro urbano da humanidade. Não foi este o caminho que a maioria das cidades escolheu? Os povos que passaram pelo trauma de verem destruídas as suas cidades quiseram tê-las de novo, e a humanidade aprendeu que nas paredes antigas, nas esquinas e nas ruas estreitas, estavam impressas boa parte do sentido de pertencer, dos sentimentos e da memória coletiva dos lugares.
Desde então, a história do urbanismo mudou e, depois de meados do século XX, a maioria das cidades do planeta, que estruturou planos consequentes de desenvolvimento estratégico, incluiu a preservação de seus núcleos e bairros históricos entre as metas prioritárias. A preservação do patrimônio edificado, dos núcleos históricos e a reconstrução de áreas antigas se incorporaram às metas de planejamento que visavam garantir a qualidade de vida presente e futura das cidades.
A cidade de Parnaíba identifica-se com o ciclo do gado e dos produtos do sertão, com a carnaúba e o babaçu, com a navegação de cabotagem e com o comércio marítimo internacional [após a abertura dos portos do Brasil em 1808]. Estrategicamente situada em uma das regiões mais belas do país, em pleno Delta do Parnaíba, entre Jericoaquara e os Lençóis Maranhenses, debruça-se sobre o rio, justificativa maior da sua existência. É compreensível que estejam na orla do rio os edifícios mais antigos da urbe.
Os galpões, que simbolizam o apogeu portuário, relacionam aquele período inicial com os processos subsequentes, de industrialização e de incremento das exportações. A permanência de edifícios coloniais na cidade em meio ao ecletismo e o art déco representam períodos reforçados pela via férrea, mantendo a prosperidade evidenciada pelos muitos prédios posteriores aos anos 30 do século XX. O modernismo surgiu ligado à continuidade do desenvolvimento, mas a qualidade de suas obras, a partir dos anos sessenta, evidencia que o rodoviarismo, a decadência do porto e a queda na produção industrial da cera de carnaúba refletiram-se profundamente na vida e na paisagem daquela época. A morfologia da rede urbana reflete a mesma sequência histórica: o núcleo próximo ao rio é marcado por ruas estreitas, de desenho orgânico. Surgem, ao longo do tempo, vias largas, depois avenidas arborizadas e praças de desenho regular. A ponte, com a dimensão e o descompromisso com o entorno, tópicos daquele tempo, arremata esse processo.
Na relação com a natureza, outra leitura: a planície farta foi suficiente para acolher a cidade e seu desenvolvimento em uma das margens do rio, preservando a outra - com seu colar de carnaúbas, tão marcante na paisagem.
O tombamento reconhece os valores da lenta evolução urbana, protege as marcas de memória, que identificam a cidade e sua gente, impede excessos da atualidade globalizada.
Valorizar riquezas. Valer-se de um tesouro. Este é o sentido do tombamento de Parnaíba, que além do valor intrínseco do patrimônio, representa uma importante ferramenta de progresso para o Piauí.
O tombamento reconhece os valores da lenta evolução urbana, protege as marcas de memória, que identificam a cidade e sua gente, impede excessos da atualidade globalizada.
Valorizar riquezas. Valer-se de um tesouro. Este é o sentido do tombamento de Parnaíba, que além do valor intrínseco do patrimônio, representa uma importante ferramenta de progresso para o Piauí.
Para o Iphan, além do significado cultural, o tombamento do Conjunto Histórico e Paisagístico de Parnaíba representa o arranque na implantação da rede de patrimônio cultural no Estado do Piauí. Além de Parnaíba, estão propostos os tombamentos das cidades de Oeiras e Piracuruca, ambas como parte do conjunto de Cidades do Piauí testemunhas da ocupação do interior do Brasil durante o século XVIII, e também cidades como Floriano, Pedro II e Amarante, com outras abordagens, mas que se somarão a bens já reconhecidos ou que ainda virão a sê-lo, formando um sistema de patrimônio cultural no Estado do Piauí.
Ressaltamos ainda aspectos principais do processo de tombamento de Parnaíba: a seleção de mais um componente para o seleto grupo das cidades históricas do Brasil; a base da constituição de uma rede de bens protegidos em cada Estado da federação – iniciando pelo Piauí – configurando uma nova estratégia de proteção e valorização do patrimônio cultural no Brasil; as oportunidades abertas a partir do tombamento de um centro histórico, unindo passado e futuro, proporcionando melhor qualidade de vida e novas alternativas de desenvolvimento sustentável para o Piauí e para a sua gente.
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