Pesquisa de Campo, Alto Longá, Piauí, 05 e 06 de janeiro de 2012
Por Áurea Pinheiro, Amparo Moura, Ariane Lima, Cássia Moura e Marluce Morais
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| Senhor Antônio Pequeno, promesseiro de Santos Reis. Foto Áurea Pinheiro, 6 de jan. 2012 |
Dentre os personagens bíblicos acolhidos pela tradição religiosa popular na localidade Estrela, Alto Longá, um dos municípios do Norte do Piauí, estão os Reis Magos, celebrados como Santos Reis ou simplesmente Santo Reis, considerados milagrosos.
O imaginário popular em todo dos Reis Magos se revela em rituais complexos, permeados de interpretações. Símbolos, sentidos e significados, cultural e historicamente elaborados, são traduzidos e metamorfoseados pelas comunidades devotas, são apresentados em manifestações diversas, de caráter sagrado e profano.
As comunidades que celebram o dia de Santos Reis estão dispersas em países de tradição cristã, imprimem na oralidade diversas narrativas, contadas de geração em geração. A celebração em louvor aos Santos está ligada intimamente às festas de Natal e aos cultos pagãos de fertilidade, de abundância alimentar.
Em Alto Longá, nos versos improvisados pelos caretas, personagens da Festa ou Folia de Reis, existem referências aos magos do Oriente, que depois de cumprida a rota que lhes indicava a estrela de Belém, prestaram a Jesus, na gruta onde ele nascera, homenagens com a entrega de presentes.
Não é possível saber quando teve início a Folia ou Festa de Reis em Alto Longá, mas é plausível afirmar o caráter secular da tradição, transmitida de pais aos filhos, que ao longo do tempo assumem a devoção e em alguns casos a promessa feita, mas não cumprida por um ente querido a Santo Reis.
Cada ano, uma promessa é cumprida. Na casa do promesseiro há um altar ornado, singelo em honra a Santo Reis. Arranjado em uma caixinha de papelão de aproximadamente trinta por trinta centímetros cuidadosamente está colocada a imagem dos Reis Magos na gruta onde prestaram homenagem ao menino Jesus, referência ao primeiro culto de devoção ao menino Deus. Os magos, guiados por uma estrela, teriam levado ao recém nascido ouro, incenso e mirra, que representam as três dimensões de Cristo: a realeza, a divindade e a humanidade.
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| o altar, o devoto, santos reis. Foto Áurea Pinheiro, 6 de jan. 2012 |
A Folia de Reis é realizada em países como Portugal, Espanha, França, Bélgica e Itália. Podemos afirmar que foi trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses que mantiveram a tradição europeia com elementos pagãos: doações e trocas de presentes, geralmente oito dias que antecedem o dia seis de janeiro, Dia de Santos Reis.
No Brasil, além de muitos estados do Nordeste, dentre eles o Piauí, a tradição sobrevive em Minas Gerais e São Paulo, guardando algumas de suas características originais. Em Alto Longá, a celebração é conhecida como Folia de Reis, Dia de Reis ou Reisado, há a presença de grupos de foliões, que após o Natal até a véspera de Reis, visitam os amigos ou conhecidos, cantando modinhas e versos alusivos à data. Dançam, cantam e rezam ao som da sanfona.
Em outros estados brasileiros estão presentes outros instrumentos como tambores, violões, cavaquinhos e pandeiros. O Caretas percorrem as casas do bairro e pedem dinheiro ou alimentos aos donos da casa para a partilha, em forma de almoço e jantar aos convivas no Dia de Reis.
O que observamos são permanências medievais da teatralização da fé. Os adereços do altar, dos caretas, da bandeira e do boi são coloridos e cuidadosamente preparados. O boi é ornado com chita, fitas coloridas e espelhos; os caretas, figuras mascaradas, fazem palhaçadas, elaboram momentos cômicos; com suas máscaras de couro ou ornadas com papeis coloridos, representam os soldados de Herodes, governador romano que queria matar Cristo, motivando a fuga da sagrada família para o Egito.
Vivenciamos em Alto Longá uma celebração com elementos pagãos e cristãos, com dimensões sagradas, crenças antigas, ancestrais, seculares, com origens míticas, enraizadas em um lugar árduo, que deseja magia, ludicidade, energia, alegria; deseja o encontro com a fortuna, com a utopia, com a desconstrução do real.
A estética, a sonoridade, a devoção representam momentos de deleite, alegria, fé; trocas simbólicas entre devoto e santos, o cumprimento de promessa por um pedido difícil, um milagre, fruto da intervenção sobrenatural.
A Folia tem a marca de uma naturalidade coletiva, é cíclica, móvel, os devotos transportam a imagem de Santos Reis que veneram, com sua bandeira, cânticos; há festins alimentares com produtos da localidade, são servidos pratos típicos do lugar, dentre eles o sarapatel, a buchada, a calinha ao molho pardo, o porco assado, o carneiro ao molho, etc.
A Folia é a materialização da religiosidade, da espiritualidade, é o desejo de fiéis que dão continuidade às homenagens aos Reis, Santos, que circulam pelas casas, visitam as famílias criadoras da comunidade, famílias que vivem entre o mundo urbano e rural, entre o natural e o sobrenatural.