segunda-feira, 22 de julho de 2013

Coleção VOX MUSEI




LANÇAMENTO DE LIVRO Em cada conta um lamento, de Marluce Lima de Morais. 

Primeiro volume da coleção VOX MUSEI arte e patrimônio
Dia 06 agosto, 18h30m | Livraria Anchieta
Avenida Dom Severino, 1104, Bairro de Fátima, Teresina- Piauí, Brasil
Sinopse A autora apresenta uma pesquisa de natureza histórico-etnográfica sobre as atitudes diante da morte e dos mortos, rituais praticados por senhores e senhoras rezantes no Nordeste do Brasil. Elege a cidade de Alto Longá, no sertão do Piauí, como espaço de investigação. A partir de aportes teórico-metodológicos da História e da Antropologia, procura compreender e interpretar, nas histórias de vida e de devoção, os sentidos e significados de gestos, orações, palavras e emoções, que marcam as canções e os lamentos diante da morte – as Incelências. Privilegia a metodologia da História Oral e Etnografia, conceitos de história de vida, memória, tradição, religiosidade e devoção. Busca compreender de que maneira os rituais de morte significam e se tornam parte das vivências de uma comunidade diante às interferências de um tempo carregado de agoras.



Prefácio



Por Áurea da Paz Pinheiro



Marluce Lima de Morais é uma jovem pesquisadora e educadora, revela-se, ao longo desses últimos cinco anos, uma historiadora competente e dedicada ao ofício tão bem descrito por Marc Bloch, historiador francês das mentalidades, que em suas memórias enfatizou a necessidade dos profissionais da História buscarem uma diversidade de testemunhos, para ele quase infinita, dizia que “[...] Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar-nos sobre ele."

Ao longo da experiência de investigação da autora destaco o período entre 2008 a 2013, quando do Curso de Licenciatura Plena em História e Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Piauí e no Grupo de Pesquisa/CNPq Memória, Ensino e Patrimônio Cultural; conquistou amigos, com os quais estabeleceu diálogos no campo da História, da Memória Social e do Patrimônio Cultural.

Nas reuniões no Grupo de Pesquisa, aprendeu que o valor do patrimônio não está impresso em si mesmo, mas nas relações estabelecidas em um tempo e espaço dados, que é preciso considerar os indivíduos que ocupavam o solo, as formas de utilização dos recursos naturais, as formas de produção elaboradas ao longo do tempo por culturas ancestrais, as relações com o patrimônio cultural, com a paisagem cultural - uma porção peculiar do território, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, em que a vida e a ciência humana imprimem marcas e atribuem valores.

Este livro, editado como o primeiro volume da Coleção VOX MUSEI arte e patrimônio, Grupo de Pesquisa/CNPq, Universidade Federal do Piauí “Memória, Ensino e Patrimônio Cultural”, e CIEBA, Centro de Investigação e de Estudos da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, adensa os espaços de debates, de reflexões e de interlocução de investigadores ibero americanos que pretende ser VOX MUSEI; o desafio que se propõe aos investigadores e profissionais é apresentarem trabalhos que possam ser publicados com o selo deste Coletivo Cultural, estudos que permitam análises sobre o papel da arte, do patrimônio e dos museus, nomeadamente neste século, marcado pela dinâmica informativa e comunicacional, pela diversidade de culturas, perspectivas e olhares sobre o mundo.

O selo VOX MUSEI seleciona e publica o livro por se tratar de resultado de pesquisa acurada, árdua e criteriosa. A investigadora optou por dialogar com conceitos e métodos da História, da Antropologia e da Etnologia, valeu-se da Etnografia e da História Oral, consultou acervos públicos e privados no Nordeste e no Rio de Janeiro, documentação correspondente a um tempo longo, do século XIX ao século XXI, que traduz a natureza deste trabalho. Valeu-se de estudos clássicos sobre as atitudes diante da morte e dos mortos, investigações de Philippe Ariès e Michel Vovelle, que influenciaram profundamente a historiografia brasileira, sobretudo, quanto à variedade de fontes usadas: testamentos, registros de óbitos, estatutos de irmandades, dados estatísticos, relatos folclóricos, dentre outros.

A perspectiva historiográfica francesa atravessa o trabalho de Marluce Morais e a permite traçar comparações das atitudes diante da morte no cenário brasileiro, nomeadamente no sertão do Piauí, no Nordeste do Brasil.

A autora apaixona-se pela transversalidade do conhecimento e não teme os caminhos tortuosos já descritos por Lilia K. Moritz Schwarcz, quando diz: “Práticas de fronteira podem ser marcadas por 'relações de boa vizinhança', na feliz expressão de Robert Darnton em O beijo de Lamourette, mas, também, e com frequência, são palco de litígio. O espaço para a verificação de limites e para a demarcação de parte a parte nem sempre é objeto de consenso. Na delimitação da divisão geográfica, assim como na separação de disciplinas e de objetos, os critérios diferem, as justificativas são sempre múltiplas, assim como é nesse local que se estabelece o jogo da alteridade”.

Marluce Lima de Morais, para os amigos simplesmente Malu, nos conta histórias e memórias de uma tradição ancestral, de um patrimônio oral em risco em uma pequena comunidade no sertão do nordeste brasileiro, a cidade de Alto Longá, no interior do Piauí, um território no qual “a morte é celebrada com um lamento conhecido por incelência, expressão cultural materializada no ritual de acompanhamento de um defunto e que se realiza diante de uma morte preparada, assistida, domesticada”.

Tece uma narrativa fluida e nos convida à leitura de seu texto, fruto de reflexões sobre um corpus documental de arquivo, bibliográfico, relatos diversos que registra ao longo da etnografia que elabora, corpus que informa sobre questões ricas e complexas que envolvem não apenas os problemas teóricos e metodológicos do patrimônio cultural, mas igualmente da memória.

À pretexto de falar do Piauí, da presença da religião católica no Estado, constrói o caminho longo de uma tradição e espiritualidade cotidiana, elege uma referência cultural, não se intimida com as críticas mordazes daqueles que consideram os estudos dos folcloristas dispensáveis, lê aqueles relatos, observa-os com atenção analítica, em um trabalho arqueológico, a contra-pêlo, atravessa as narrativas, captura percepções ainda não sentidas, interpela os relatos, constrói novos registros, dialoga com os personagens que elege para a sua história, compara os depoimentos, apresenta-nos uma cultura híbrida, fluida, móvel, latente, pulsante, singular.

De forma apaixonada e competente, Malu nos apresenta as relações intrínsecas entre patrimônio, memória e história, sobretudo, os desafios que se apresentam ao ofício, modos de fazer do historiador. Escolhe um tempo longo, três personagens, descobre e registra singularidades da história das atitudes diante da da morte no Brasil, notadamente no Piauí; dialoga com os personagens, descobre fragmentos, cacos, restos, mas, sobretudo, permite que seus informantes atualizem, trabalhem as suas memórias. Descobre que é possível encontrar histórias e memórias até mesmo onde os outros não as veem, cria um ponto de reflexão sobre as assertivas de Pierre Nora, para quem “[…] tudo o que é chamado hoje de memória não é, portanto, memória, mas já história; tudo o que é chamado de clarão de memória é a finalização de seu desaparecimento no fogo da história. A necessidade de memória é uma necessidade da história”. No campo das mentalidades, das religiosidades e das espiritualidades há histórias, muitas memórias, ritualizadas no quotidiano.

Marluce Morais, historiadora, nos apresenta um Piauí afeito a fé, marcado pela presença de gerações com memórias coletivas e individuais complexas, situadas nos “quadros sociais da memória” (Halbwachs); nos apresenta pessoas que vivem intensamente os afazeres de suas vidas religiosas; capta memórias e lembranças imersas em comunidades que ainda não sofreram os desatinos da modernidade e da modernização.

Ao acreditar que a memória é experiência e trabalho, ao mesmo tempo coletiva e individual, a autora usa a História Oral e a Etnografia como instrumentos de pesquisa histórico-antropológica; percebe a memória a partir da localização das lembranças conforme os grupos sociais e suas relações recíprocas; acredita em um tempo longo, complexo, perceptível ao historiador atento e sensível, não crê em um tempo linear, cartesiano.

Segue a trilha de Alessandro Portelli e Paul Thompom, realiza entre-vistas, adentra os sentimentos mais profundos, localizados nos recônditos da alma e do lar dos informantes e devotos católicos; a autora comunga com a ideia de que a memória só tem sentido em relação a um grupo, que os acontecimentos rememorados devem ter sido vividos em comum, que deve haver a participação de outras pessoas de um mesmo grupo social; o “eu” só se torna relevante enquanto parte de uma “comunidade afetiva” de um “meio efervescente”, adentra e participa do cotidiano da comunidade Flor do Dia; faz pesquisa, participa do dia-a-dia dos informantes, sabe ouvir, esperar, registrar, tomar notas, narrar - nos conta uma história dentre tantas outras possíveis.

Como Halbwach, acredita que a memória individual só tem sentido dentro de relações sociais, a rememoração pessoal se faz em contextos de solidariedades múltiplas, as lembranças estão inseridas em lugares sociais e afetivos, em experiências históricas, culturais. Halbwachs foi um observador atento da vida cotidiana, só conseguia perceber as pessoas integradas, umas em relação a outras, logo não é possível lembrar quando se estar só. Seguindo o raciocínio do sociólogo, nunca estamos ou refletimos sozinhos, não chegamos às ideias ou aos modos de pensar de forma isolada; portanto, para que alguém recorde um acontecimento precisa de outras pessoas, não necessariamente presentes sob a forma material e sensível, mas que façam parte do contexto social, onde os acontecimentos e testemunhos se desenrolariam.

Malu consegue entender os conceitos, os aplica em seu texto, sabe que a capacidade de lembrar algum acontecimento está diretamente relacionada a um ou mais grupos. As discussões sobre as memórias individuais e coletivas consideram o indivíduo participante das duas espécies de memórias – a autora tece a teia, constrói a sua narrativa com base nos testemunhos, lê com calma, leveza e nos convida a entrar na alma devota do sertão brasileiro; narra histórias de vida, faz críticas à história tradicional, claramente simples e ingênua, por desconsiderar uma infinita diversidade de possibilidades de representar o real, frágil e sub-reptício. 

Marluce Morais problematiza a história e o patrimônio cultural, adere à aproximação da história de outras ciências: sociologia, antropologia, etnologia, traz para a cena principal o homem e a mulher simples, não o grande personagem, percebe uma multiplicidade de pessoas, aproxima-se da micro-história.

Na condição de historiadores trabalhamos com discursos, vozes e imagens do passado e do presente, nesse particular, a autora é dinâmica e nos apresenta uma multiplicidade de indivíduos que elege para sua investigação, revela-nos as diversas práticas discursivas que foram construídas com e ao seu redor da tradição, da cultura, do patrimônio cultural; reconstitui um dado contexto histórico-social no qual se desenrola os acontecimentos, valoriza formas de comportamentos, de práticas culturais e políticas; procura entender que os comportamentos normalizados estão inseridos em um meio social, retrata de forma competente uma época, não reduz as condutas a comportamentos-tipos, mas interpreta as vicissitudes de um tempo, de personagens à luz de um contexto.

É com a certeza da qualidade da investigação realizada por Marluce Lima de Morais que o selo VOX MUSEI publica esta obra, que pode ser apreciada por doutos e leigos.

Boa leitura!

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