LANÇAMENTO DE LIVRO Em cada conta um lamento, de Marluce Lima de Morais.
Primeiro volume da coleção VOX MUSEI arte e patrimônio
Dia 06 agosto, 18h30m | Livraria Anchieta
Avenida Dom Severino, 1104, Bairro de Fátima, Teresina- Piauí, Brasil
Sinopse A
autora apresenta uma pesquisa de natureza histórico-etnográfica sobre
as atitudes diante da morte e dos mortos, rituais praticados por
senhores e senhoras rezantes no Nordeste do Brasil. Elege a cidade de
Alto Longá, no sertão do Piauí, como espaço de investigação. A partir de
aportes teórico-metodológicos da História e da Antropologia, procura
compreender e interpretar, nas histórias de vida e de devoção, os
sentidos e significados de gestos, orações, palavras e emoções, que
marcam as canções e os lamentos diante da morte – as Incelências.
Privilegia a metodologia da História Oral e Etnografia, conceitos de
história de vida, memória, tradição, religiosidade e devoção. Busca
compreender de que maneira os rituais de morte significam e se tornam
parte das vivências de uma comunidade diante às interferências de um
tempo carregado de agoras.
Prefácio
Por Áurea da Paz
Pinheiro
Marluce Lima de Morais é uma jovem
pesquisadora e educadora, revela-se, ao longo desses últimos cinco anos, uma
historiadora competente e dedicada ao ofício tão bem descrito por Marc Bloch, historiador
francês das mentalidades, que em suas memórias enfatizou a necessidade dos
profissionais da História buscarem uma diversidade de
testemunhos, para ele quase infinita, dizia que “[...] Tudo o que o homem diz
ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar-nos sobre
ele."
Ao longo da experiência de investigação da autora destaco o
período entre 2008 a 2013, quando do Curso de Licenciatura Plena em História e
Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Piauí e no
Grupo de Pesquisa/CNPq Memória, Ensino e Patrimônio Cultural; conquistou
amigos, com os quais estabeleceu diálogos no campo da História, da Memória
Social e do Patrimônio Cultural.
Nas reuniões no Grupo de Pesquisa, aprendeu que o valor do
patrimônio não está impresso em si mesmo, mas nas relações estabelecidas em um
tempo e espaço dados, que é preciso considerar os indivíduos que ocupavam o
solo, as formas de utilização dos recursos naturais, as formas de produção
elaboradas ao longo do tempo por culturas ancestrais, as relações com o
patrimônio cultural, com a paisagem cultural - uma porção peculiar do
território, representativa do processo de interação do homem com o meio
natural, em que a vida e a ciência humana imprimem marcas e atribuem valores.
Este livro, editado como o primeiro volume da Coleção VOX MUSEI arte e
patrimônio, Grupo de Pesquisa/CNPq, Universidade Federal do Piauí “Memória,
Ensino e Patrimônio Cultural”, e CIEBA, Centro de Investigação e de Estudos da
Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, adensa os espaços de
debates, de reflexões e de interlocução de investigadores ibero americanos que
pretende ser VOX MUSEI; o desafio que
se propõe aos investigadores e profissionais é apresentarem trabalhos que
possam ser publicados com o selo deste Coletivo Cultural, estudos que permitam
análises sobre o papel da arte, do patrimônio e dos museus, nomeadamente neste
século, marcado pela dinâmica informativa e comunicacional, pela diversidade de
culturas, perspectivas e olhares sobre o mundo.
O selo VOX MUSEI seleciona e publica o livro
por se tratar de resultado
de pesquisa acurada, árdua e criteriosa. A investigadora optou por dialogar com
conceitos e métodos da História, da Antropologia e da Etnologia, valeu-se da
Etnografia e da História Oral, consultou acervos públicos e privados no
Nordeste e no Rio de Janeiro, documentação correspondente a um tempo longo, do
século XIX ao século XXI, que traduz a natureza deste trabalho. Valeu-se de
estudos clássicos sobre as atitudes diante da morte e dos mortos, investigações
de Philippe Ariès e Michel Vovelle, que influenciaram profundamente a
historiografia brasileira, sobretudo, quanto à variedade de fontes usadas:
testamentos, registros de óbitos, estatutos de irmandades, dados estatísticos,
relatos folclóricos, dentre outros.
A perspectiva historiográfica francesa atravessa o trabalho
de Marluce Morais e a permite traçar comparações das atitudes diante da
morte no cenário brasileiro, nomeadamente no sertão do Piauí, no Nordeste do
Brasil.
A autora apaixona-se pela transversalidade do
conhecimento e não teme os caminhos tortuosos já descritos por Lilia K. Moritz
Schwarcz, quando diz: “Práticas de fronteira podem ser marcadas por 'relações
de boa vizinhança', na feliz expressão de Robert Darnton em O beijo de Lamourette, mas, também, e
com frequência, são palco de litígio. O espaço para a verificação de limites e
para a demarcação de parte a parte nem sempre é objeto de consenso. Na
delimitação da divisão geográfica, assim como na separação de disciplinas e de
objetos, os critérios diferem, as justificativas são sempre múltiplas, assim
como é nesse local que se estabelece o jogo da alteridade”.
Marluce Lima de Morais, para os amigos simplesmente Malu, nos conta histórias e memórias de
uma tradição ancestral, de um patrimônio oral em risco em uma pequena
comunidade no sertão do nordeste brasileiro, a cidade de Alto Longá, no
interior do Piauí, um território no qual “a morte é celebrada com um lamento
conhecido por incelência, expressão
cultural materializada no ritual de acompanhamento de um defunto e que se
realiza diante de uma morte preparada,
assistida, domesticada”.
Tece uma narrativa fluida e nos convida à leitura de seu
texto, fruto de reflexões sobre um corpus
documental de arquivo, bibliográfico, relatos diversos que registra ao longo da
etnografia que elabora, corpus que
informa sobre questões ricas e complexas que envolvem não apenas os problemas
teóricos e metodológicos do patrimônio cultural, mas igualmente da memória.
À
pretexto de falar do Piauí, da presença da religião católica no Estado,
constrói o caminho longo de uma tradição e espiritualidade cotidiana, elege uma
referência cultural, não se intimida com as críticas mordazes daqueles que
consideram os estudos dos folcloristas dispensáveis, lê aqueles relatos,
observa-os com atenção analítica, em um trabalho arqueológico, a contra-pêlo,
atravessa as narrativas, captura percepções ainda não sentidas, interpela os
relatos, constrói novos registros, dialoga com os personagens que elege para a
sua história, compara os depoimentos, apresenta-nos uma cultura híbrida, fluida,
móvel, latente, pulsante, singular.
De
forma apaixonada e competente, Malu
nos apresenta as relações intrínsecas entre patrimônio, memória e história,
sobretudo, os desafios que se apresentam ao ofício, modos de fazer do
historiador. Escolhe um tempo longo, três personagens, descobre e registra
singularidades da história das atitudes diante da da morte no Brasil,
notadamente no Piauí; dialoga com os personagens, descobre fragmentos, cacos,
restos, mas, sobretudo, permite que seus informantes atualizem, trabalhem as
suas memórias. Descobre que é possível encontrar histórias e memórias até mesmo
onde os outros não as veem, cria um ponto de reflexão sobre as assertivas de
Pierre Nora, para quem “[…] tudo o que é chamado hoje de memória não é,
portanto, memória, mas já história; tudo o que é chamado de clarão de memória é
a finalização de seu desaparecimento no fogo da história. A necessidade de
memória é uma necessidade da história”. No campo das mentalidades, das
religiosidades e das espiritualidades há histórias, muitas memórias,
ritualizadas no quotidiano.
Marluce
Morais, historiadora, nos apresenta um Piauí afeito a fé, marcado pela presença
de gerações com memórias coletivas e individuais complexas, situadas nos
“quadros sociais da memória” (Halbwachs); nos apresenta pessoas que vivem
intensamente os afazeres de suas vidas religiosas; capta memórias e lembranças
imersas em comunidades que ainda não sofreram os desatinos da modernidade e da
modernização.
Ao
acreditar que a memória é experiência e trabalho, ao mesmo tempo coletiva e
individual, a autora usa a História Oral e a Etnografia como instrumentos de
pesquisa histórico-antropológica; percebe a memória a partir da localização das
lembranças conforme os grupos sociais e suas relações recíprocas; acredita em
um tempo longo, complexo, perceptível ao historiador atento e sensível, não crê
em um tempo linear, cartesiano.
Segue a
trilha de Alessandro Portelli e Paul Thompom, realiza entre-vistas, adentra os
sentimentos mais profundos, localizados nos recônditos da alma e do lar dos
informantes e devotos católicos; a autora comunga com a ideia de que a memória
só tem sentido em relação a um grupo, que os acontecimentos rememorados devem
ter sido vividos em comum, que deve haver a participação de outras pessoas de
um mesmo grupo social; o “eu” só se torna relevante enquanto parte de uma
“comunidade afetiva” de um “meio efervescente”, adentra e participa do
cotidiano da comunidade Flor do Dia; faz pesquisa, participa do dia-a-dia dos
informantes, sabe ouvir, esperar, registrar, tomar notas, narrar - nos conta
uma história dentre tantas outras possíveis.
Como
Halbwach, acredita que a memória individual só tem sentido dentro de relações
sociais, a rememoração pessoal se faz em contextos de solidariedades múltiplas,
as lembranças estão inseridas em lugares sociais e afetivos, em experiências
históricas, culturais. Halbwachs foi um observador atento da vida cotidiana, só
conseguia perceber as pessoas integradas, umas em relação a outras, logo não é
possível lembrar quando se estar só. Seguindo o raciocínio do sociólogo, nunca
estamos ou refletimos sozinhos, não chegamos às ideias ou aos modos de pensar
de forma isolada; portanto, para que alguém recorde um acontecimento precisa de
outras pessoas, não necessariamente presentes sob a forma material e sensível,
mas que façam parte do contexto social, onde os acontecimentos e testemunhos se
desenrolariam.
Malu
consegue entender os conceitos, os aplica em seu texto, sabe que a capacidade
de lembrar algum acontecimento está diretamente relacionada a um ou mais grupos.
As discussões sobre as memórias individuais e coletivas consideram o indivíduo
participante das duas espécies de memórias – a autora tece a teia, constrói a
sua narrativa com base nos testemunhos, lê com calma, leveza e nos convida a
entrar na alma devota do sertão brasileiro; narra histórias de vida, faz
críticas à história tradicional, claramente simples e ingênua, por desconsiderar
uma infinita diversidade de possibilidades de representar o real, frágil e
sub-reptício.
Marluce
Morais problematiza a história e o patrimônio cultural, adere à aproximação da
história de outras ciências: sociologia, antropologia, etnologia, traz para a
cena principal o homem e a mulher simples, não o grande personagem, percebe uma
multiplicidade de pessoas, aproxima-se da micro-história.
Na
condição de historiadores trabalhamos com discursos, vozes e imagens do passado
e do presente, nesse particular, a autora é dinâmica e nos apresenta uma
multiplicidade de indivíduos que elege para sua investigação, revela-nos as
diversas práticas discursivas que foram construídas com e ao seu redor da
tradição, da cultura, do patrimônio cultural; reconstitui um dado contexto
histórico-social no qual se desenrola os acontecimentos, valoriza formas de
comportamentos, de práticas culturais e políticas; procura entender que os
comportamentos normalizados estão inseridos em um meio social, retrata de forma
competente uma época, não reduz as condutas a comportamentos-tipos, mas
interpreta as vicissitudes de um tempo, de personagens à luz de um contexto.
É com a
certeza da qualidade da investigação realizada por Marluce Lima de Morais que o
selo VOX MUSEI publica esta obra, que
pode ser apreciada por doutos e leigos.
Boa
leitura!